SOBRE O FIM DO SEMESTRE, TUDO É FINITO E A SILVER LINING

agosto 01, 2017

“If clouds are blocking the sun, there will always be a silver lining that reminds me to keep on trying”
- The Silver Linings Playbook


O semestre finalmente terminou e eu estou arrumando as coisas para poder passar a minha única semana de recesso em São Paulo, na casa dos meus pais. Finais de semestres me deixam tão nostálgica quanto os finais de ano; eles também são tempos para fechamentos e uma oportunidade para revermos o que aconteceu de bom e de ruim para podermos melhorar no próximo. O primeiro semestre desse ano foi o semestre menos previsível dos últimos dois anos - e olha que nesses dois anos, eu mudei de cidade para morar sozinha e começar a faculdade sem noção nenhuma de absolutamente nada -, e tantas coisas aconteceram de uma forma que eu ainda não consegui entender tudo o que ocorreu.

Nesse semestre, eu tive que aprender a lidar e conviver com o pior de mim e, sozinha, a me erguer de novo. Eu sempre falo que a maior lição que morar sozinha me ensinou foi a de lidar com um nível completamente novo de solidão, o do tipo que a gente descobre lados de nós mesmos que nem sabíamos que existia, nós percebemos que temos que aprender a dialogar com nós mesmos e com os nossos sentimentos... E tudo isso é mais difícil do que parece. Todos os lados da minha vida parece afundar em uma velocidade extremamente alta, eu tentei correr e segurar todas as pontas, mas quanto mais eu tentava segurar mais eu afundava junto com tudo. Junto com todos esses acontecimentos, eu me via mais sozinha ainda. Eu sempre penso sobre o que significa ser adulta e talvez seja isso, aprender a lidar com as piores coisas sozinhas, porque ninguém tem mais paciência para te escutar - talvez seja por isso que quanto mais velho você fica, mais difícil é para você fazer amigos. Eu abandonei tudo, porque eu não conseguia me levantar e para baixo parecia ser a única direção por muito tempo. Porque parece que não há motivo algum para levantar. Porque parece que todos os dias são iguais de uma forma ruim. Porque eu passo tempo demais sozinha em casa sem conversar com ninguém e todo mundo parece estar vivendo e seguindo em frente, enquanto estou aqui.

Sempre quando eu fico com uma sensação ruim, eu pego o meu diário e vou escrever sobre todas as minhas angústias. Dá última vez, eu tive vontade de olhar as minhas outras entradas, a primeira entrada do ano foi no dia 17 de janeiro - uma terça-feira, que eu me lembro mais do que eu gostaria. A última coisa que eu escrevi naquela entrada foi "eu fui feliz por dezesseis dias" e olhando aquela primeira entrada do dia 17 de janeiro, eu fui relembrar dos meus dezesseis dias felizes. Eu procurei conversas que tive, tweets que escrevi, fotos que eu tirei, coisas que eu escrevi e eu sorri para tudo o que eu estava fazendo e depois daquele 17 de janeiro eu simplesmente parei.

Existe algo na nossa existência, na nossa sociedade, que valoriza mais os fatores externos do que os internos. Tudo o que acontece a nossa volta nos afeta de alguma forma, mas é a gente (o nosso corpo e a nossa mente) que decide (de forma consciente ou inconsciente) como isso nos vai de fato nos afetar. Na maioria das vezes, senão todas, eu internalizo tudo o que vem de fora e carrego elas comigo mais tempo do que o necessário e saudável. Essa é a pessoa que eu sou, alguém que se espera uma validação e valorização de todo mundo e se importa com tudo e o que todos pensam, porque foi assim que me ensinaram a ser. Naqueles primeiro dezesseis dias do ano, eu não senti esse peso nas minhas costas e experimentei, de certa forma, a liberdade (que depois todo esse sentimento resultou no meu conto "Dandara segue em frente"); e depois disso, a realidade caiu em mim de uma vez só e muito rápido, eu não havia me preparado para voltar para a vida real em um ritmo frenético como estava e não consegui levantar mais.

Quando eu estava procurando os vestígios da minha felicidade no começo do ano, eu encontrei uma lista de coisas que eu queria fazer neste ano, como eu queria produzir tanto coisa para outras pessoas, como para mim mesma; eu queria cuidar de mim mais, porque eu estava animada para o que poderia vir acontecer no futuro e eu sei que eu ainda não sei tratar meu corpo como ele merece; eu queria dedicar o meu tempo para fazer as coisas que eu amo, porque eu não estou ficando mais jovem e nunca é cedo ou tarde demais para começar algo. Em algum momento, eu me perdi dentro de mim mesma, me deixei viver sob essa nuvem cinzenta e passei a me alimentar pela chuva tóxica que caia dela.

Um dia, eu estava conversando (e depois, no mesmo dia, o John Green compartilhou esse vídeo sobre o mesmo assunto) com uma amiga sobre como realmente nada importa na vida e, com esse pensamento, nós podemos desencanar das coisas que realmente não importam e podemos focar nas coisas que nos fazem feliz. Isso me fez perceber que a maioria das coisas com que eu estava deixando ser motivo para a minha infelicidade eram coisas que eu poderia deixar de lado, são coisas que acabam, porque nada dura para sempre e ainda bem que não. Às vezes, a gente não percebe que tudo na vida é finito - talvez ainda seja resquícios esse sentimento adolescente de que tudo é para sempre -, que tudo acaba um dia, seja bom ou seja ruim; e se preocupa demais com o que não precisa. Claro que é muito difícil a gente não sentir ou dizer para o nosso corpo e mente não reagir com as coisas, mas depois daquela conversa eu fiquei mais consciente das escolhas que eu posso fazer.

Eu termino de arrumar a mala para partir para a minha única semana de recesso antes do segundo semestre de 2017 começar com o mesmo brilho nos olhos que eu comecei o ano sete meses atrás. Mais consciente das escolhas que eu posso fazer; mais consciente de que tudo que acontece na vida tem um lado bom, seja sua forma finita, seja sua fluidez. Preparada para me lembrar de que estou no controle da minha própria vida, mesmo quando parece que eu não tenho poder algum sobre ela. Eu só preciso me lembrar da linha lá no horizonte, além das nuvens escuras e da tristeza, onde o futuro reside.

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