[PROJETO 12 CONTOS] DANDARA SEGUE EM FRENTE

janeiro 13, 2017


Eu sinto o sol queimar a superfície do meu ombro, mas eu não me importo. Os grandes óculos escuros impedem as outras pessoas manterem um longo contato visual comigo.
- Eles são intimidadores – Cássia disse quando eu os comprei.
Sob o sol do meio dia, a areia clara de Ipanema queima qualquer coisa que a toque. As pessoas agem como se isso não fosse grande coisa, elas já estão acostumadas com aquele clima, eu, no entanto, não estou então me protejo embaixo de um grande guarda-sol. Observo as pessoas em seus maiôs, biquínis, sungas, calções; eu observo seus corpos modelados e músculos definidos; eu observo suas risadas e suas expressões animadas e me pergunto como era possível alguém ficar feliz em um calor de quarenta e cinco graus Celsius.
Afundo a minha mão na areia até chegar na parte úmida e fresca, não me importo com a sensação dela entrando no pequeno espaço entre a minha unha e a carne. Fecho os olhos e me permito curtir a brisa temporária que chega do mar me envolver.
Se alguém me perguntasse o que eu estou fazendo em uma praia do Rio de Janeiro em pleno verão nem eu saberia a resposta para isso. Eu apenas queria fugir. Fugir para o mais longe que eu pudesse... E o lugar mais longe que a minha pequena poupança conseguiu pagar foi o Rio de Janeiro.
*
- Para onde você vai? – Cássia tenta ficar no caminho entre a cama e onde estou, mas eu me desvio dela com graciosidade.
- Para qualquer lugar, - eu bufo, - qualquer lugar menos aqui.
Com rapidez, pego as roupas no guarda roupa e as jogo na mala sem me importar se elas estão dobradas ou se os espaços estão sendo aproveitados – claro que eu cuidaria disso assim que ela fosse embora, eu só queria aproveitar a cena dramática. Passo por ela indo de cômodo em cômodo pegando o que eu julgo ser importante.
- Mas, para onde? – Ela insiste. Cássia é uma das minhas melhores amigas, senão a única amiga, e mantinha essa postura de mãe sempre que eu entrava em um dos meus episódios. Era Cássia que me livrava de encrencas, mas, dessa vez, eu precisava entrar em uma. Ela dizia que eu adorava um drama. – O que você vai fazer? Como vai?
- Eu não sei – respiro fundo e paro o que estou fazendo para olhá-la. – Eu vou pegar tudo o que eu tenho e ver para onde ele me leva. Esse é o plano, está feliz?
- Não exatamente...
- Nem eu - admito.
Continuo a fazer a minha mala e peço para que ela me deixe na rodoviária. Ela não me responde, porém faz o que eu peço. O caminho até a rodoviária é silenciosa, eu não falo nada e nem ela, apenas o rádio e a nova música de algum cantor sertanejo tocando.
Chego à bilheteria e pergunto para a atendente qual ônibus poderia pegar com a quantia que tinha – o que não era muito. Ela me encara com o cenho franzido como se eu fosse louca, mas revira os olhos rapidamente e procura no sistema os ônibus disponíveis.
- Rio de Janeiro – responde com uma voz cega. – Daqui meia hora.
- É esse mesmo – sorrio, ignorando a careta dela.
*
Meu celular vibra e vejo uma mensagem de Cássia. Há outra notificação que me faz desligar o celular antes que eu pudesse ler o que era. Jogo-o no fundo do pequeno cofre e fecho a porta ao mesmo tempo em que solto o ar dos meus pulmões. Fazia algum tempo que eu não sentia essa sensação de estar se sentindo sufocada.
Tomo um banho demorado e visto um vestido florido combinando com os meus chinelos. Eu não sei por que eu havia escolhido o Rio de Janeiro, no entanto eu poderia dizer que vou o contrário: ela me chamou. No momento em que a atendente do guichê na rodoviária me disse o primeiro destino que eu poderia comprar, eu poderia ter negado, mas não.
Agora, eu estou no Rio de Janeiro em um quarto de hotel minúsculo com menos dinheiro do que esperado, algumas roupas atípicas para o clima do lugar, sem a menor noção de qual seria o próximo passo.
- Você consegue, Dandara – digo firme para a imagem no espelho do banheiro.
Ando até a avenida de frente para a praia. O sol está se pondo e pinta o céu de um laranja forte, algumas pessoas aproveitam para correr ou andar de bicicleta, outras apenas estão rindo e conversando. A maioria está no mar ainda ou admirando o sol indo embora sentadas na areia agora gelada. Me sento em um banco e fico olhando para a paisagem, pintando aquela cena na minha mente – a silhueta do Morro dos Dois Irmãos e os raios de sol cortando as nuvens.
Um grupo de pessoas passa na minha frente e uma delas deixa cair algo aos meus pés. Ele se abaixa e recupera a camiseta vermelha, jogando-a por cima do ombro. Seus olhos encontram rapidamente os meus, mas logo os perco de vista por causa da luz; seu cabelo está úmido e arrepiado e ele carrega um sorriso que exibe seus dentes brancos. Ele só veste um short de tactel preto e chinelos assim como o resto do seu grupo.
- Desculpa aí – ele diz, com um forte sotaque carioca.
- Imagina – eu sorrio de volta. – Está tudo bem.
Eu penso que nossa conversa terminaria aqui, mas ele continua no meio do meu campo de visão com o seu sorriso acolhedor.
- Deseja algo mais? – Pergunto, tentando não parecer rude e falhando.
- Você é de onde?
- Como sabe que eu não sou daqui? – Faço uma careta, levantando uma das sombracelhas.
Ele aponta para mim como toda:
- Suas roupas, seu sotaque, os seus gestos, a forma como está sentada aí admirando o por do sol como se fosse o seu primeiro – ele dá uma risada descontraída. – Claramente não é do Rio de Janeiro.
Em um impulso coloco os punhos em cada lado do quadril – eu tinha essa péssima mania de fazer essa pose quando estava irritada – e o encaro.
- É um por do sol muito bonito, sim, para a sua informação...
- Eu sei, já vi várias vezes – ele me interrompe e abre mais o sorriso, como se estivesse me provocando. Ele faz como se fosse dizer algo, no entanto um de seus amigos aparece e diz que eles têm que ir. – Aproveita bastante o seu por do sol.
E ele sai sem dizer mais nada. Observo-o até não conseguir mais enxergá-los e quando me volto para o céu, o sol já havia dado até logo há muito tempo.
*
Omar sempre vestia calças. Mesmo no verão. Ele dizia que a sensação de se queimar o assustava. Eu nunca entendi isso muito bem. Seu armário era composto por calças jeans e camisas das mais diversas cores – eu o fazia vestir verde na maioria das vezes, porque eu achava lindo que seus olhos saltavam quando ele usava camisas verde.
Um dia, Cássia apareceu em casa contando sobre uma excursão para uma praia, onde comemoraríamos o Ano Novo e seria maravilhoso. Omar recusou porque a sensação de ter que vestir um traje de banho para ele era inviável e então passamos o nosso Ano Novo no apartamento de seus pais com bastante vinho e o Show da Virada na televisão.
Ele gostava de jantar em lugares caros apenas porque podia - a sua família tinha muito dinheiro e ele gostava de usufruir disso. Nós íamos muito ao teatro e eu amava isso, em como ele sempre me levava para ver as peças que eu queria. Se você olhasse para Omar nunca diria que ele era um menino de quase 23 anos; ele carregava a mesma expressão de seu pai e a postura de sua mãe. Durante esses anos todos de relacionamento, eu aprendi a gostar do seu modo de vida e seus gostos. Eu o amava. Ele era a única coisa que eu conhecia.
- Interessante – a sua voz era grave.
- O quê?
- Eu nunca imaginaria que alguém ainda lê Shakespeare – ele se senta ao meu lado. Os seus olhos verdes me chamam atenção e o seu perfume amadeirado também.
- Normalmente eu não leio, - fecho o livro, repousando-o em meu colo, - mas eu vi o filme e pensei em dar uma chance – dou de ombro.
- Eu sou Omar – ele estende a mão de forma tão formal que me assusta um pouco. – Direito.
- Dandara. Letras – eu pego a sua mão e sinto algo nele. Algo que eu não sabia descrever, apenas sentir.
Isso foi no nosso primeiro ano da faculdade. Ele me fascinava, ele era a personificação do misterioso e diferente. Omar me levava para conhecer lugares diferentes em uma cidade que era totalmente nova para mim, ele me apresentou para a sua família e sua mãe me convidava para ficar para o jantar. Ele me comprava pequenas plantas em vasinhos coloridos, porque sabia que eu odiava flores em buquês; ele me levava para tomar sorvete artesanal e tínhamos sessões de cinema em seu quarto.
Eu chegava na república que dividia com mais cinco meninas e, assim que deitava na minha cama, suspirava e dava risadinhas sozinhas pensando no enredo de filme que eu estava vivendo. Porque era exatamente assim que eu me sentia: vivendo um sonho.
*
Acordo sem saber exatamente o que fazer. Olho no relógio ainda deitada na cama e vejo que perdi a hora do café da manhã no restaurante do hotel. Havia tantas coisas para conhecer no Rio de Janeiro e mesmo assim eu não fazia a menor ideia do que fazer no Rio de Janeiro. A alta temporada deixava tudo mais difícil de realizar, então decido fugir das rotas turísticas, o que diminui noventa por cento do que eu conheço sobre a cidade.
Procuro pelo meu celular pelos cantos da cama tamanho queen por alguns minutos até me recordar de seu destino, me esforçando para não resgatá-lo da sua prisão escura e fria. Eu não havia viajado seis horas em curvas e mais curvas para cair na tentação e deixar que um pequeno aparelho eletrônico me jogasse de volta para o passado – mesmo que esse passado fosse três dias atrás.
Olho para o espelho do banheiro e repito o que eu havia dito no dia anterior:
- Você consegue, Dandara.
O sol me cega no momento em que eu saio pela porta do hotel. Eu não sei como as pessoas conseguiam morar naquela cidade. As pessoas andam pelas ruas já em trajes de banho, com seus guarda-sol, chapéus e caixas térmicas; me imagino sendo uma moradora da cidade e tendo que trabalhar todos os dias com a imagem da praia ao fundo e o calor e tudo aquilo que pareceu inviável.
Chego à praia apenas seguindo o fluxo das pessoas. Observo um relógio de rua desejando feliz ano novo em meio a um comercial de uma agência de banco. O Ano Novo. Eu havia esquecido completamente que hoje é o último dia do ano. Sem meu celular, eu havia perdido a noção dos dias e, droga, era por isso que Cássia está ligando e mandando mensagens.
Entretanto, eu não iria desistir. Eu tenho que fazer isso. Eu tenho que ficar aqui... Por algum motivo. Quando chego aos pés do Arpoador e olho para o seu topo, vejo pessoas sentadas tomando sol, pessoas tirando fotos e pessoas apenas curtindo a paisagem. A cada passo que dou sinto algo diferente. A cada passo que dou sinto deixando algo e faço uma promessa silenciosa de não resgatá-la no caminho de volta.
Assim que alcanço o topo, a visão do mar infinito me tira o ar. Perfeito. Mais que perfeito. A faixa de areia na praia tomada de guarda-sol, os prédios de diversos tamanhos e formas ao fundo, o Morro dos Dois Irmãos do lado oposto e o resto do quadro apenas o azul mais azul possível. Perfeito. Estico uma canga que havia trazido na superfície quente da pedra e me sento, permitindo respirar fundo e devagar para absorver tudo aos poucos.
- Vejo que achou outro lugar para admirar o por do sol? – Uma voz me faz pular. Abro os olhos que nem havia percebido estarem fechados e a sua silhueta toma o meu campo de visão. – Nós nos conhecemos ontem... O cara da camiseta...?
Continuo encarando ele, sem saber qual seria a reação mais correta.
- Eu me esqueci de me apresentar ontem – ele estica a mão, mas eu não me mexo. – Eu sou Nathan.
- Você está me seguindo? – Foi a primeira coisa que saiu.
- Eu poderia fazer a mesma pergunta – ele sorriu. – Mas não, não estou te seguindo. – Ele se senta ao meu lado no resto de canga livre e aponta para o céu: - Eu gosto de vir aqui no último dia do ano e pensar no que eu fiz e no que deixei de fazer, o que eu quero mudar para o próximo ano. E tenho o bônus da paisagem.
Parecia uma coisa ótima para se fazer ali. O que eu queria mudar em relação ao que eu fiz esse ano? Absolutamente tudo.
- Dandara – eu digo, tentando sorrir. – Meu nome é Dandara.
- Olá, Dandara – ele abre um sorriso mostrando seus dentes brancos e comprimi as bochechas formando várias pequenas curvas pelo seu rosto. – Então, o que veio fazer no Rio de Janeiro?
- Eu não sei. Tudo. Nada – dou de ombros e o olho confusa. – Férias?
- Gostei da firmeza – ele solta uma gargalhada.
Observo o seu rosto, me questionando o que ele fazia ali – não no Arpoador, mas sentada ali comigo. Eu não era a pessoa com a face mais convidativa do Rio de Janeiro.
- Onde estão os seus amigos?
- Se preparando para mais tarde – Nathan balança a cabeça devagar. – O que você vai fazer mais tarde?
De repente, eu me sinto frustrada por ele me encher de perguntas que eu não sabia as respostas.
- Ficar no meu quarto de hotel assistindo televisão? – O que eu havia imaginado como uma afirmação firme terminou com uma interrogação que o fez rir mais.
- O que você acha de passar a virada do ano em Copacabana?
- Eu não sei... – minha mente entra em modo alerta.
- Vamos, será divertido e você como turista é um passeio obrigatório – ele bate o ombro no meu braço com gentileza. – E não é apenas eu. Um monte de gente vai estar lá, meus amigos e os amigos deles...
- Eu não estou muito no clima para festa, eu não quero estragar a festa de ninguém – essa parte é verdade.
- Por que você veio ao Rio de Janeiro? – Ele repete a pergunta. Eu não sabia o que ele queria de resposta, então resolvi dar a verdade... ou quase isso.
- Fugir, eu vim para o Rio de Janeiro para fugir. Para me esquecer de coisas e tentar... Seguir em frente?
- Então! Você veio para a cidade perfeita na época perfeita. O Ano Novo está aí para você seguir em frente, para a direção que você quiser na verdade – ele aponta para o mar.
Talvez a melhor opção não fosse ficar no deprimente quarto de hotel enquanto a maior queima de fogos do Brasil acontecia a alguns metros. Talvez esse fosse um sinal – de algum lugar – sobre qual o próximo passo tomar.
- Ok, eu vou – sorrio.
*
Eu nunca havia ficado sozinha. Desde os meus treze anos, eu sempre estive com alguém. As minhas mãos tremiam e o pavor subia pela minha espinha quando eu ficava sozinha na sala do cinema para algum namorado meu buscar pipoca ou apenas ir ao banheiro. Os olhares – que possivelmente estavam dentro da minha mente – me devoram viva.
As mãos dadas, os sorrisos trocados, os carinhos e os beijos roubados. Eu amava aquilo, eu amava amar. Saber que existe uma pessoa pensando em você na maior parte do dia me fazia conseguir dormir à noite e respirar durante o dia. Eu nunca havia ficado sozinha. Até eu me sufocar.
 Um vestido preto de paetês, salto alto preto e os cachos jogados delicadamente pelo ombro direito, deixando minha orelha esquerda à mostra com a joia que Omar havia comprado para mim como presente de namoro. Era o nosso aniversário de cinco anos de namoro e ele havia pedido traje formal para a noite que, segundo ele, seria inesquecível – eu fiz o meu melhor. Assim que ele chegou e eu entrei em seu carro, eu não me sentia mais... jovem; com aquela roupa, o carro e o motorista, o champanhe e o restaurante caro, eu me sentia adulta, apenas por fora.
- Por aqui – o garçom nos escolta até a nossa mesa no canto central do salão. Observo o grande candelabro que cobre metade do teto, tentando o máximo não ficar de boca aberta.
Omar faz o pedido das bebidas e vou analisar os pratos principais – peixe, frutos do mar, o que eu acredito ser um nome chique para uma carne bovina, frutos do mar e massa. As bebidas chegam e os pedidos são feitos, eu sorrio para o garçom e Omar pega na minha mão sobre a mesa. A sua mão cobre a minha, seus dedos se entrelaçam nos meus e minhas bochechas coram.
- Você está linda, Dandara – depois de cinco anos, eu ainda me via apaixonada pelo tom de sua voz e como ele dizia meu nome. – Eu não consigo acreditar que faz cinco anos... Cinco anos que eu te amo. Nós já passamos por tanta coisa e ainda continuamos aqui.
Seus olhos verdes mudam de cor com a luz do ambiente, porém há algo mais ali e me perco tentando descobrir o que é.
- Nós terminamos a faculdade e moramos juntos. Eu consegui uma posição na empresa do meu pai e você está se candidatando para vagas de emprego – ele gesticula com um braço e a outra mão acaricia os nós de meus dedos. Sorrio para a forma como ele falava, formal e sério. Eu tinha dúvidas sobre Omar ter apenas vinte e dois anos. – Está tudo dando certo, Dandara. Eu quero o próximo passo.
- E qual seria o próximo passo? – Ergo uma das sombracelhas como sempre fazia para provocá-lo.
Omar solta a minha mão e procura algo em seu bolso. Meu estômago se contorce involuntariamente e inconscientemente, em algum lugar de mim sabia o que estava acontecendo, mas eu só fui perceber tarde demais. Ele já está com a pequena caixa aberta e um anel com uma pedra tão grande que não sabia se era possível; as pessoas começam a virar para nos observar.
- O próximo passo é oficializarmos tudo. Está tudo pronto, Dandara. Eu com um emprego para nos sustentarmos, você vai correr atrás do seu sonho de ser professora, nós nos amamos. Podemos até arrumar um cachorro como você sempre quis. Eu te amo, Dandara. Casa comigo.
O ar me falta. O restaurante gira e arfo tentando achar ar para respirar, mas o que encontro é um turbilhão de pensamentos estourando a minha mente. Sinto a pressão dos olhares alheios em mim, esperando uma respostas e me pergunto quanto tempo havia se passado e qual era o limite para o silêncio atingir o constrangedor.
- Dandara... Diga algo – Omar pede entre dentes, ainda sorrindo – mais para as pessoas do que para mim.
- Ca... Casar? – Solto. – Por que você quer casar?
- Por que eu te amo! Nós nos amamos... Você me ama, certo?
- Eu... Sim! Claro. Mas casar... – as pessoas começam a cochichar e vejo uma senhora balançar a cabeça como se julgasse o meu comportamento. O ar fica rarefeito e, quando percebo, estou de pé. – Eu preciso... Achar ar.
Ando o mais depressa possível com o salto alto entre as mesas até o estacionamento do estabelecimento. Inspiro uma grande quantidade de ar até fazer meus pulmões doerem e solto até receber a mesma reação. Casar. Eu queria casar? Sim. Com Omar? Possivelmente. Agora?
- Dandara! – Escuto a voz de Omar. Volto a andar, atravessando os carros em zig-zag. – Dandara, me espere!
- O quê?
Ele me alcança, seu cabelo agora bagunçado pelo vento e alguns pontinhos de suor em sua testa. Mesmo assim ele continua lindo.
- Você não quer casar? O que está acontecendo?
- Você não acha que isso é um grande passo? – Arregalo os olhos. – Tipo, um g-r-a-n-d-e passo.
- Não – ele é firme. – Pense, Dandara, nos casando, nós vamos ter a vida perfeita. Com o meu trabalho, você vai poder ir atrás do seu sonho e dos projetos que você sempre quis sem se preocupar com nada e...
- Espera – interrompo-o, - sem me preocupar? Com o quê? Com o dinheiro?
- Bom... Sim...
- Você acha que eu estou com você pelo dinheiro? Você acha que se nós nos casássemos eu iria deixar você me sustentar apenas porque o meu trabalho não ganha tanto quando o seu? É isso que você acha que o nosso casamento seria?
- Eu nunca deixaria nada faltar na nossa casa, querida – ele tenta chegar mais perto, pegando em minha mão com a sua e na minha cintura com a outra mão. – Nós sabemos que o salário de professora não é nada, eu vou me certificar que você seja a mulher mais feliz do mundo.
- Omar! – Eu o afasto com um empurrão. – Casamento não é isso! Não é assim que as coisas funcionam. Eu não serei a sua mulher troféu!
- Eu sei, querida...
- Não, você não sabe... – olho em seus olhos e sei que ele não sabe. Então eu compreendo pela primeira vez, eu sinto no fundo dos meus ossos. Ele nunca vai entender. – Eu não quero me casar com você, Omar.
- O quê?
- Eu nem sei se eu quero mais você...
- Dandara...
- Eu... Eu preciso ir.
Volto a andar, deixando Omar para trás. Ando até achar um ponto de táxi e quando o taxista pergunta para onde quero ir é a primeira vez que eu não tinha um lugar para ir.
*
Escolho ficar de chinelos mesmo, pois o calor me impede de aproveitar o meu par de tênis favorito. Coloco um vestido solto e cor creme e prendo o cabelo de lado. Não era nem de perto o que eu havia imaginado para o meu Ano Novo, mas aquilo teria que servir.
- Você está no Rio de Janeiro, pelo amor, Dandara! Aproveite! – Eu grito para o espelho.
Pela janela do hotel observo as pessoas caminhando em seus trajes brancos em direção à praia. O último dia do ano. As últimas horas do ano. O que será que está acontecendo no resto do mundo? Me amaldiçoo por fazer o que vou fazer, mas eu precisava.
Ando até o pequeno cofre do quarto e agarro o meu celular. Como se fosse telepatia, o aparelho vibra e toca a única música que eu não queria ouvir, a música que havia sido a minha música pelos últimos cinco anos. O nome de Omar aparece no topo da tela e, sem perceber, seguro o ar dentro de meus pulmões ao mesmo tempo em que deslizo o dedo na tela.
- Dandara? – A sua voz grave aperta meu coração. – Dandara?
- Oi...
- Oi.
Um nó na garganta, um formigamento nas bochechas e um soluço; as lágrimas surgem e ameaçam a cair, mas eu as seguro pelo máximo de tempo que posso.
- Como você está? Onde você está? – Sinto a urgência em sua voz.
- Eu... Eu estou bem, não se preocupe.
- Não me preocupar, Dandara? Eu liguei para Cássia e nem ela sabia onde você está. Isso é preocupante.
Eu não sabia o porquê, mas aquilo me faz rir um pouco. Cássia e eu éramos inseparáveis, era verdade; desde que eu me conheço e até onde eu planejo o futuro, Cássia sempre esteve e sempre estará lá.
- Quando vai voltar para casa?
- Eu não vou voltar, Omar – solto todo o ar que estou prendendo e vejo os olhos com força. Ainda não.
- Não vai... Não vai voltar? Que história é essa?
- Eu vou voltar para a minha cidade, ficar um tempo com a minha mãe até eu conseguir um emprego – tarde mais, as lágrimas caem e a minha voz corta entre as palavras. – Eu vou seguir em frente e você vai seguir em frente.
- Dandara...
- Não Omar, por favor. A minha vida toda eu sempre tive alguém do meu lado; a minha vida toda eu sempre fui a melhor que eu conseguia para fazer aquele alguém feliz e eu gosto de pensar que consegui. Mas está na hora de eu me fazer feliz, sabe? Eu te amo, Omar, mas eu preciso descobrir o que me faz feliz sozinha; eu preciso enfrentar o mundo sozinha e não ter que me casar com alguém apenas porque eu tenho medo de ficar sozinha ou para ter uma vida confortável. Eu não quero ser o tipo de pessoa que escolhe o confortável acima de qualquer coisa – digo tudo de uma vez só, soluçando entre uma frase e outra para ter certeza de que teria ar para tudo. – Eu sinto muito, Omar.
Desligo o telefone antes que ele possa dizer algo ou que eu mudasse de ideia. Encaro a minha imagem no espelho, os olhos inchados e as bochechas vermelhas, a imagem perfeita para o Ano Novo. O telefone do quarto toca bem na hora; respiro fundo mais uma vez e digo o que agora aparece ser o meu mantra:
- Você consegue, Dandara.
*
Faltam apenas alguns minutos até o ano acabar. Espero algum sentimento me preencher, algo que me diga que ano que vem vou realmente conseguir. Alguma pista. Qualquer coisa.
- Tudo bem, - Nathan me puxa de volta para a realidade, - nós temos que ir mais perto do mar, está quase chegando a hora.
- É seguro? – Eu hesito.
- Acho que para você sim, mas para Cardoso com certeza não – ele aponta para um de seus amigos que está sentado no meio fio mais bêbado do que qualquer bêbado que eu havia visto na vida. – Vamos, Fabiana vai ficar com ele e o resto de nós vai, está tranquilo.
Uma das amigas de Nathan pega em minha mão e me puxa antes que eu pudesse responder apropriadamente. A areia fofa esfria os meus pés e conforme chegamos mais perto da água, posso sentir a brisa fresca e o cheiro salgado do mar me atinge.
As pessoas começam a gritar. A hora está chegando. 10. Fecho os olhos e deixo a água atingir os meus joelhos, batendo com força como se ele estivesse me chacoalhando até todas as coisas ruins saíssem de mim. 7. Penso nas coisas boas que eu consegui nesse ano, todas as pessoas que eu fiz feliz, todos os momentos em que eu sorri. 4. Prometo fazer coisas que eu sempre tive vontade ou fazer aquilo que eu nem sabia que eu queria fazer. 2. Abro os olhos e respiro fundo, olho para o céu assim como todo mundo. 1. Solto o ar, dando mais espaço não para uma nova Dandara, mas para a Dandara que sempre esteve aqui, eu só não tive lhe dado uma chance ainda.
Explosões no céu fazem meu coração tremer. As pessoas se abraçam e desejam um feliz ano novo e que todos os meus desejos se realizem. Eu abraço-as de volta, desejando tudo em dobro. Volto a olhar para o céu assistindo a explosão de cores e formas, me sentindo diferente pela primeira vez. Eu sorrio para mim mesma.
- Você consegue, Dandara.

*

Este conto faz parte de uma coletânea de doze contos que se formarão ao final deste ano. O "Projeto 12 Contos" foi criado pela Dani, do No Plural é Mais Legal, em que o objetivo é escrever um conto temático que tem entre 3 a 5 mil palavras. O tema de janeiro foi o verão. Para saber mais sobre o projeto e quais são os temas de cada mês, clique aqui.

Para ler outros contos meus, clique aqui.

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