UM LUGAR DE REFÚGIO

outubro 07, 2016

As horas passam e eu fico sem saber o que fazer. Aquele tom monótono dos meus dias me fazer encolher até os meus joelhos tocarem no meu peito e a sensação de solidão atacar. É incrível como o vazio é acolhedor e a multidão é sufocante.


Eu passei os últimos dois meses na casa dos meus pais devido a greve na minha faculdade. Não havia muito sentido eu ficar indo e voltando já que eu tinha alguns planos na capital - um deles foi a bienal -, então acabei prolongando as férias e ficando lá em agosto. O começo foi bastante fácil, eu estava com saudades da minha família, do meu cachorro, do meu quarto, meus livros, da minha cama; dormir e acordar todos os dias ali me fez voltar um pouco no tempo não tão distante e até usar meu moletom velho da escola me trouxe algumas saudades que eu não esperava.

Três semanas depois, eu me via contando os dias para voltar para a minha casa. De repente, as vozes que eu estava correndo para escutar, eu estava correndo para longe delas e me refugiar em algum tipo de paz e silêncio que estava faltando. Eu estava procurando algum lugar longe dali. Eu estava tendo uma overdose de casa.

Desde que eu me mudei da casa dos meus pais, eu sempre me encontro tendo conflitos de sentimentos. Uma hora, eu quero ficar em casa e, logo depois, eu quero voltar para a minha cidade; eu amo morar sozinha e eu odeio morar sozinha; eu quero ser independente e eu quero voltar para debaixo dos braços da minha mãe. Esses sentimentos chegam na mesma velocidade em que eles vão embora: podem durar dois segundos ou duas semanas. Eles são mais constantes do que eu gostaria.

O fato é que cada um deles tem os seus prós e contras. Quando eu estou em casa, eu me sinto dona da minha vida, eu tenho a vida da forma como eu quero e tenho que encarar responsabilidades que eu sei que vou ter que aguentar pelo resto dos meus dias. Quando eu estou na casa dos meus pais, eu regrido para os meus dias, eu me torno dependente daquele ambiente e deixo o dia se esticar até ele se cansar de mim e ir embora. Eu tento dosá-los, porque sei que preciso aproveitá-los enquanto tenho a opção de ter os dois, mas um gota a mais, todo o sistema transborda e o caos está feito.

Assim que eu piso na sala, o meu corpo inteiro relaxa. Como se ele soubesse que aqui estamos seguros. As coisas são feitas com calma e do meu jeito, são feitas apressadas e do meu jeito. Tudo está bagunçado e arrumado ao mesmo tempo, depende do teu ponto de vista. O importante não é a organização, mas o que o caos aqui significa. Significa controle. Controle de algo que eu agora acho que eu tenho, controle da minha vida... Ou tomando o controle dela aos poucos. Acho que é assim que uma casa deve te fazer sentir.

Em casa, sozinha, eu encontro a calma que eu não consigo encontrar em lugar algum. O que antes era concentrado apenas na minha mente, eu consigo materializar nesse pequeno espaço que eu chamo de casa. É uma extensão do meu mundinho. É saber que aqui, eu posso ser qualquer coisa e qualquer coisa é possível. É saber que aqui é um lugar de refúgio.

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