O CONTROLE QUE EU NUNCA TEREI

julho 31, 2016

Eu nunca tive o controle da minha vida. Isso pode parecer estranho vindo de mim, uma menina de vinte anos que está começando a vida e ainda tem todo o tempo do mundo para aproveitar a vida. Ao mesmo tempo que eu tenho "toda a vida" pela frente, eu me encontro em um lugar onde eu sei que eu nunca terei o poder de escolha por mim e que eu já desperdicei chances e oportunidades para ter uma vida.
Eu nunca tive o controle da minha vida e talvez nunca terei. Todas as lembranças da minha vida, eu me encontro em um lugar ou situação que eu não queria, mas todos achavam que era melhor para mim. A primeira vez foi quando eu tinha doze anos e meus pais decidiram que a minha vida seria bem melhor se nos mudássemos para São Paulo (spoiler alert: não foi). Eu nunca duvidei das intenções dos meus pais sobre a minha vida, porém eles nunca foram muito bons com sinais.
A segunda vez aconteceu quando eu tive o meu primeiro sonho, eu queria ser bailarina. A dança sempre esteve presente na minha vida e eu cheguei ao ponto de querer entrar nessas Academias grandes e ser uma grande dançarina. Foi quando tomaram o controle da minha vida e disseram que eu nunca seria uma bailarina, porque não dava dinheiro.
Alguns anos depois, eu me apaixonei por escrever e por literatura. Eu encontrei na escrita a mesma tecla de escape que eu sentia com a dança, a mesma liberdade e a mesma fuga da realidade. Eu disse que eu seria uma escritora e que eu queria fazer sucesso com aquilo, como tantas outras autoras. Eles disseram que escrever não dava dinheiro e eu ia morrer de fome. Que eu tinha que me focar em uma carreira e que, de preferência, tivesse uma formação acadêmica.
Quando eu estava triste e tinha pensamentos que até hoje voltam na minha mente; monstros debaixo da cama que sorrateiramente aparecem ao meu lado e gritam coisas para mim, eles me atormentavam o tempo inteiro e me faziam fazer coisas que eu não queria. Eles tomaram controle da minha vida novamente e disseram que eu tinha que ser feliz, que não tinha motivo para eu chorar tanto.
No final do ensino médio, eu decidi que eu não queria fazer faculdade. Disseram que eu iria sim fazer uma faculdade. Quando eu disse que eu não tinha certeza do que eu queria fazer, falaram o que eu deveria fazer. Até mesmo quando eu aceitei a aventura de mudar a minha vida, eles disseram que se eu fosse, não teria volta, que eu deveria aguentar qualquer coisa e permanecer ali e lidar com as consequências. Até mesmo quando eu fui forte, deram um jeito de eu tomar de volta o controle da minha vida.
Hoje, qualquer pensamento que eu tenho de liberdade, eu sei que aquilo logo vai ser tirado de mim, porque sempre foi assim. É um sentimento constante de que aquela fagulha de felicidade que eu tenho não vai durar para sempre e eu não posso me dar o luxo de aproveitar aquilo, porque eu vou sofrer mais ainda quando ela for embora. Eu me sinto constantemente ansiosa e aflita com o que pode acontecer a seguir, porque eu nunca tenho certeza do que está atrás da porta que me encontro todos os dias. A surpresa do dia seguinte me assusta a ponto de eu odiar ter que dormir, porque eu não quero ter uma novidade sobre a minha vida, algo que eu não terei o controle como sempre.
Eu nunca tive o controle da minha vida. Eu nunca tive realmente o poder de escolha nas minhas mãos, apenas uma ilusão. Eu nunca tive a coragem de correr e pegá-la de volta. Eu sempre fui fraca demais para tentar correr atrás dela. Eu sorrio quando me pedem, porque é mais fácil. Eu minto quando me perguntam coisas, porque a verdade vai trazer consequências piores e vão me dizer o que eu tenho que fazer para reverter aquilo.
Eu nunca tive o controle da minha vida. E acho que eu nunca terei.

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