FEMINILIDADE E QUEM EU QUERO SER

junho 30, 2016

Quando eu tinha doze anos, eu li esse livro para pré-adolescentes onde a protagonistas dizia que ela queria ser um menino, porque meninos não precisavam se preocupar com as coisas de meninas na puberdade, etc. Tudo para os meninos era mais fácil, a vida deles é bem mais fácil do que a das meninas!, o livro dizia. Desde o instante em que eu li aquilo, eu concordei em tudo com a personagem do livro; eu não gostava de ser menina, dava muito trabalho.
A gente aprende que menina tem que ser feminina; se você não for feminina, tu é um menino. Simples. Muito nova, eu me peguei com raiva de tudo aquilo. Eu não gostava de ser menina, porque isso significava ficar presa em um ciclo vicioso de padrões de beleza, normas e regras de como eu devia ser. Então eu rompi com tudo aquilo.
Eu passei alguns anos da minha vida afirmando que eu não gostava de coisas definidas "de menina" pelo simples fato de que eu não gostava de algumas coisas que "meninas devem fazer". Eu usava roupas largas, não usava nenhum tipo de cosméticos, saias ou vestidos, salto alto, sandálias, afirmava com todo orgulho que eu odiava a cor rosa, porque apenas menininhas gostavam de rosa. Por alguns anos, eu acreditei em tudo isso, porque era assim que devia ser: x ou y, sem mais.
Assim tão nova, as pessoas nos fazem perder a cabeça mandando a gente fazer algo e ser algo que agradam elas e as fazem confortável, sendo que não é tão fácil assim. Assim tão nova, a gente tem que decidir quem devemos ser e não é tão fácil assim. Na realidade, eu não queria ser menino, eu só queria ter a liberdade de ser quem eu sou sem ter nenhuma pressão de todos os cantos possíveis dizendo quando e como eu devo ser uma garota de verdade. E isso é uma frase que recebia sempre: que eu não era uma menina de verdade.
Depois de um tempo, eu comecei a sentir vontade de usar um salto alto, experimentar batons e outras coisas "de menina" e eu lutei bravamente contra essa vontade, porque eu não queria ser uma menina. Eu simplesmente não queria ser uma delas. Só que, secretamente, eu estava morrendo de vontade de experimentar coisas pro curiosidade. E, aos poucos, eu fui provando e descobrindo que eu gosto de algumas coisas de meninas.
Eu gosto de algumas roupas curtas e justas ao mesmo tempo que eu amo comprar roupa na sessão masculina - apesar de que eu odeio que toda vendedora me encara e faz a mesma pergunta "você sabe que isso é masculino, né? tem certeza de que vai usar isso?". Eu gosto de usar batons apesar de não ter a mínima curiosidade de usar maquiagem. Eu amo tênis apesar de acabar de comprar um par de botas de salto alto que eu estava morrendo para comprar faz alguns meses.
Eu escrevo esse post, porque esses dias eu pintei as minhas unhas e foi quando eu tive a epifania disso tudo. Eu adorava pintar as minhas unhas quando eu era mais nova, eu sempre senti uma certa liberdade de me expressar através das cores que eu usava. Porém aquilo começou a me fazer mal de certa forma, porque eu sentia a pressão de ter sempre que ter unhas pintadas, porque eu era uma menina; até que no meu ato de rebeldia, eu parei de pintá-las. Esse ato durou três anos. Até um mês atrás quando eu fiquei com uma vontade imensa de pintar as unhas.
Uma vez, eu vi um vídeo do Troye Sivan com as unhas pintadas e desde então eu vejo vários meninos de unhas pintadas sempre dizendo que isso não é algo "de menina" e sim como você gosta de se expressar. Roupa, maquiagem, sapatos não determinam quem você é; você se define e expressa isso através das roupas, maquiagens e sapatos. Você é quem faz tudo isso.
Assim que eu terminei de fazer as minhas unhas, eu me senti diferente e estranha. Estranha de um jeito bom. Como se eu estivesse me libertando. Isso pode parecer bem bobo, mas é verdade como pequenas coisas assim podem mudar a forma como você vê o mundo. O fato é: eu gosto de ser menina e provavelmente aquela personagem do livro que eu li também; pode ser difícil com o mundo exterior nos vigiando e nos julgando, mas ela só precisa ser fiel com quem ela quer ser e ser feliz com quem ela é.
O grande ponto é - e que eu demorei muito tempo para entender e aprender externalizar isso para parar de ser um guilty pleasure - que não existe "coisas de meninas" ou "coisas de meninos", apenas coisas. Não existem "roupas femininas" ou "roupas masculinas", são roupas. Não existem "cosméticos masculinos" ou "cosméticos femininos", são cosméticos. Você define aquilo que você usa, assim como você pode permitir que eles te definem, é uma escolha sua.
O meu desejo para agora é: eu quero continuar a fazer coisas que eu gosto e usar coisas que eu gosto e somente ser. Por mais difícil que pode ser não deixar a opinião das outras pessoas me atingir, eu só quero ser eu.

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