VAMOS FALAR SOBRE: DEMIRROMANTISMO

outubro 03, 2015

Sabe aqueles momentos em que paramos e começamos a pensar em coisas que ou não dávamos atenção ou achávamos que era culpa de um outro fator na nossa vida ou até então achávamos que era besteira?
Bom, esse foi um desses momentos.

Quando eu tinha uns treze anos, todas as pessoas da minha sala na escola estavam falando sobre uma coisa: namoro. Toda aquela excitação e hormônios explodindo era totalmente algo fora da minha zona de conforto. As meninas faziam rodinhas e fofocavam sobre meninos que elas queriam ficar (isso ainda é um termo usado na sociedade adolescente?) e quais eram os mais bonitos da sala; o meu papel nessas situações era 1) ficar totalmente desconfortável, sorrir para elas acharem que estava tão interessada quanto elas e olhar para o lado com vergonha de toda aquela conversa e - conforme eu fui ficando mais velha - 2) pegar o meu precioso livro e sentar bem longe da rodinha.
Já é difícil ser uma pré-adolescente, super tímida e antissocial, mas é mais difícil ainda quando você tem uma sociedade que impõe - silenciosamente, o que é mais cruel ainda - regras e regras sobre o modo como você deve viver. Eu tenho uma forte opinião sobre isso, o quão cruel a sociedade é e o que ela faz você fazer para se sentir socialmente aceitável, mas eu vou tentar explicar - porque é totalmente importante para esse post. Quando temos, mais ou menos, onze anos - isso na minha geração e está sendo cada vez mais nova a idade - as "crianças" já possuem toda essa informação sobre o que é namorar, beijar, ficar (essa palavra me deixa super desconfortável) e elas tem a curiosidade de experimentar e saber o que significa, na prática, tudo isso e eu não acho nada de errado nisso, quando a da vontade da pessoa fazer isso. O problema começa quando existe uma pressão em volta de todas os pré/adolescentes de fazerem isso, porque, se você não ter um primeiro beijo com, no máximo, 13 anos, as pessoas vão começar a te julgar e achar que existe algo de errado com você ou a te rotular como indesejada - e outros pensamentos mais cruéis ainda e nunca duvide como um adolescente pode ser cruel.
Na sociedade em que vivemos existem todas essas regras silenciosas sobre a idade que você tem que ter para ter o primeiro beijo, a idade que você tem que ter para ter o primeiro namorado, a idade que você deve ter para ter a primeira relação sexual e um número relativo certo para quantas pessoas você deveria ter beijado/feito sexo com tal idade - que, logicamente, previne que você não vira uma pessoa promíscua pelos olhos da sociedade. Esse é um sistema totalmente cruel seja com qualquer tipo de pessoa, é uma pressão ridícula e algo que leva a outros problemas seríssimos.
Toda essa etapa da minha vida, eu vivi como se existisse algo de errado comigo e era como se eu fosse constantemente julgada - e realmente era - por isso, o que aconteceu até muito pouco tempo atrás e você esconde isso com todas as suas forças porque você sente vergonha sobre algo que não deveria ter. Isso me fez criar um monte de inseguranças sobre mim e, às vezes, eu me odiava.
Quando estávamos em uma rodinha de meninas, apenas com o simples comentário que um menino era bonito todo mundo já presumia que você gostava desse tal menino. Por anos, eu pensei que gostar de uma pessoa significava achar ela bonita e isso trouxe outros novos problemas e confusões na minha adolescência. Eu não gostava de nenhuma daquelas pessoas de verdade, eu apenas gostava da aparência delas ou alguma característica delas e eu só fui perceber isso depois de alguns anos.
Chega um ponto da sua vida que você conheça a pensar sobre tudo e tenta resolver todas as coisas que você acha que não está certo, eu pensava as piores coisas sobre mim por não ter interesse em ninguém e não agir do mesmo modo que o resto das meninas agiam perto dos meninos. Eu acabei me envolvendo com alguns grupos de discussão no Facebook que eu fiquei mais a par de várias coisas e uma delas foi como existe um mundo enorme de formas de se identificar que ninguém fala sobre. Para todo mundo apenas existem os prefixos hetero-, homo- e a-; o resto do espectro não existe para eles e conforme eu fui lendo sobre eu finalmente achei uma palavra que me definisse, a qual me fez ver tudo diferente e me fazer pensar: essa sou eu.

A palavra demirromântico significa meio romântico, literalmente; mas quando uma pessoa se identifica como alguém demirromântico significa que ela apenas sente atração romântica com alguém que ela teve alguma conexão prévia. Ou seja, para um demirromântico se apaixonar por alguém, ela tem que ser amigo ou ter algum tipo de envolvimento emocional com a pessoa para depois desenvolver qualquer tipo de sentimento mais profundo.
Um fator que talvez seja comum entre os demirromânticos é a repulsa por alguns tipos de demonstração de afeto - talvez a palavra correta não seja repulsa, eu até a acho muito forte, mas eu peguei essa expressão do inglês e não achei uma palavra no português para me expressar melhor. Essa repulsa pode ser apresentada em vários níveis e é diferente para cada pessoa; não é uma repulsa para sempre é apenas para aquelas pessoas na qual ela não tem essa relação mais forte. Eu não sinto necessariamente repulsa, é apenas um desconforto; eu fico desconfortável vendo demonstrações públicas de afeto e eu simplesmente não entendo como as pessoas fazem isso o tempo todo! Cada pessoa classifica um gesto da forma como acha, se é algo sexual, algo romântico ou algo normal para ela e então uma pessoa se sente confortável fazendo algo que talvez outra pessoa não entende como, por exemplo, o beijo: umas pessoas acham isso totalmente sexual, porém eu acho uma coisa muito íntima e não me sinto confortável fazendo isso com qualquer um. Eu também não me sinto confortável com situações de flerte ou relacionados com pessoas que eu mal conheço, essas situações não são frequentes na minha vida mas, as poucas vezes que aconteceram, eu fiz de tudo para que elas parassem e isso inclui bloquear a pessoa apenas para ela parar de falar comigo.
Cada pessoa tem uma experiência diferente e nenhuma será igual. Ser demirromântico não significa que não possa ter um relacionamento, apenas que demora mais tempo para existir uma conexão. Demirromânticos continuam tendo atração por pessoas, se eu acho alguém atraente não significa que eu estou romanticamente atraída por ela, talvez, no máximo, sexual atraída ou simplesmente a acho bonita. Existe o equivalente ao termo para -sexual, são os demissexuais que apenas sentem atração sexual por alguém que ela teve uma conexão afetiva ou emocional antes.
Eu tive vários meses para me tornar confortável com essa palavra e tudo o que ela significa, na verdade, ela foi a melhor coisa que eu descobri porque eu pude perceber que não existia nada de errado comigo e que me fez ficar mais confortável comigo mesma.

Eu não estava certa de fazer este post e eu ainda estou com receio do que vai acontecer, mas eu sempre digo que eu preciso ser totalmente sincera com o blog, porque esse é o propósito dele eu compartilhar as minhas coisas. Eu quis escrever para eu ficar mais confortável com todas as coisas que eu estão acontecendo na minha vida e que eu espero ficar cada mais à vontade de falar sobre todas essas coisas.

1 comentários

  1. tatii, que post maravilhoso!!!
    Eu sinto que a melhor parte dos dias atuais é que existem mais possibilidades das pessoas se descobrirem e se darem conta de que não tem nada de errado com elas. Ou pelo menos, é isso que acontece comigo quanto mais eu me descubro e eu fico feliz em saber que tem mais gente se buscando também. E eu amo ler textos assim porque descobrir mais sobre as pessoas é a melhor forma de saber quem eu sou também. Eu fico muito feliz que você tenha postado isso, de verdade.
    Beijo

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