SOBRE VIVER DE LITERATURA NO BRASIL

março 11, 2015

Desde o primeiro momento que eu parei e disse que iria ser escritora - na quarta série, na minha formatura, quando a professora perguntou para todos os alunos de 10 anos o que a gente queria ser quando crescer -, a primeira coisa que veio na minha mente foi: será que é possível realizar meu sonho no Brasil? Eu sempre tive essa dúvida e tenho que confessar que até hoje eu tenho, eu sou a prova viva de que existe um preconceito com escritores nacionais feito pelos próprios brasileiros - eu, infelizmente, fui uma delas... E é incrível que a partir do momento que vi que a nossa literatura atual é tão enriquecedora quando a da época de Dom Casmurro, eu percebi que eu estava sendo preconceituosa comigo mesma, porque eu queria ser uma escritora e era brasileira.Eu sempre vi discussões sobre o assunto no Facebook, no Twitter, em blogs e até na escola. Recentemente, a Giulia fez um post sobre frases que escritores não publicados mais escutavam e comentou um pouco sobre isso e ainda coisas relacionadas - vale a pena ler! O post dela me fez ficar com muita vontade de trazer a minha opinião sobre esse assunto, afinal é o meu meio, o que eu quero trabalhar e viver disso. Inicialmente, eu queria fazer um vídeo, mas até eu começar esses meus planos ia demorar MUITO e eu estou com essa vontade de mostrar o que eu tenho de opinião, de prós e contras, de pesquisa sobre o assunto.

O primeiro contato que temos com a literatura é na escola. No meu caso, a escola desde sempre trouxe livros para a gente, mesmo morando em uma cidade sem livraria; no Ensino Fundamental, eu li muitos livros nacionais (dá pra ver lá no meu Skoob) e, fora da escola, eu li muito gibi do Maurício de Souza. Acho que a maioria das crianças teve o primeiro contato na literatura com Maurício de Souza e até Ziraldo. A coisa começa a ficar "tensa" no novo ano/oitava série, quando estamos começando a pensar no vestibular e a escola designa as aulas de literatura para os clássicos que são obrigatórios para você passar na sua faculdade dos sonhos.
Eu não sei como funciona em outros estados, porém, em São Paulo, temos um grupo de faculdades que se uniram e formaram uma lista de livros obrigatórios - esse ano eles mudaram e cada um tem uma lista diferente, mas ainda são livros parecidos. Então, na escola, os livros que lemos são exclusivamente esses, independentemente se você quer uma estadual ou federal ou particular ou se você quer estudar em outro estado, você é obrigada a ler aqueles livros (na verdade, é assim no Brasil todo por causa do ENEM e só muda alguns livros). Bom, é nesse momento que os alunos chegam e falam "Eu odeio ler!" e eu era uma das poucas pessoas que lia na minha sala, todo dia eu estava com um livro em cima da minha carteira e acho que eu fui a única que levou um livro pra sala de aula em todos os 200 dias letivos no meu terceiro ano. Eu amo ler, eu amava chegar toda semana com um livro novo na escola e ver as minhas amigas admiradas que eu tinha conseguido ler um livro de 300 páginas em uma semana; sendo que alguns alunos não conseguia ler um livro de 150 páginas pra aula de literatura.
Por que eles não conseguiam? Porque a gente era obrigado a ler, porque a professora dava um livro e mandava a gente ler porque no final do mês teria uma prova que talvez e salvaria de uma recuperação. Ninguém gosta de ser obrigado a nada e eu confesso que não li todos os livros daquelas aulas por justamente ser obrigatório - eu preferia ler Divergente que ler O Primo Basílio. E eu acho que esse é o primeiro problema sobre a nossa literatura: jovens são obrigados a ler, ao serem obrigados eles perdem a vontade de ler e ao perder a vontade de ler, o livro fica chato e isso vai acontecer com todos os livros que eles vão ler na escola e eles vão acabar achando que todos os livros são chatos resultando que quando ele for adulto ele vai ser um adulto que não gosta de ler que despreza a literatura e não vai estimular seus filhos a ler e o ciclo todo se repete (a falta de pontuação é intencional, só pra sentir a pressão do ciclo vicioso).
Uma vez que não existe uma população de crianças e jovens sedentos por livros, não existe uma população de adultos sedentos por livros - uma vez que os jovens são os adultos do futuro. Isso afeta o mercado literário, porque não temos consumidores e assim não existe direções para crescer. Gente, tudo isso leva para o que o mercado literário no Brasil é hoje e isso é pobre - não no sentido pejorativo, mas ele carece de várias coisas que autores hoje tentam buscar e eu espero que a gente consiga alcançar e superar todas essas barreiras.
Eu li uma pesquisa da Folha no final do ano passado super importante para entender como os escritores nacionais vivem. Para vocês terem uma noção, um autor só recebe 10% do preço da capa de seu livro e os 90% são para editora, distribuidora e livraria. A pesquisa entrevistou 50 escritores novos e veteranos nessa saga de fazer literatura no nosso país e mostrou que muitos escritores precisam de um plano B para se sustentarem, porém muitas vezes esse plano B são profissões relacionadas como jornalismo ou oficinas literárias e palestras. Os autores entrevistados também falaram como a literatura mudou muito e que existe sim escritores que vivem disso hoje em dia, o que não acontecia antigamente - nem Machado de Assis viveu de seus livros - porém são escritores que possui uma carreira já bastante definida - por exemplo, Paulo Coelho e Talita Rebouças.
Outra matéria que foi foco de discussão foi o do New York Times, onde uma escritora brasileira afirmava como a profissão era banalizada no Brasil, junto com a profissão de educador, em comparação com os EUA. Muitas pessoas criticaram a matéria falando que era inútil comparar um país com o outro porque não queremos ser o EUA e eu muitas vezes não acho certo ficarmos comparando um país com outro, sendo que nossa história é totalmente diferente; porém a questão da matéria é mostrar como essas profissões que são SIM a base da formação de uma pessoa são ignoradas no nosso país e como os profissionais ganham um péssimo salário. Gente, sem professores, sem livros, sem palavras não existe país, não existe carreiras, não existe nada!
Outro ponto que é muito discutido é como os brasileiros leem pouco; segundo pesquisas, os brasileiros leem quatro livros por ano e, com certeza, existe exceções (eu li quase quarenta livros ano passado). Na minha opinião, o brasileiro está sim lendo mais! A prova foi o caos que aconteceu na Bienal do Livro de São Paulo em 2014, eu frequento a Bienal desde 2008 e, pela primeira vez, eu vi uma gama totalmente diferente de pessoas que eu costumava a ver antigamente. Até me falaram que ler virou "modinha" por causa de John Green, Crepúsculo e Jogos Vorazes e ler pode até ter virado modinha, mas uma modinha que eu realmente espero que dure para sempre na vida dessas pessoas. Começou esse BOOM de ler livros no Brasil com a chegada de grandes franquias e mais pessoas estão lendo e acho que a indústria literária em si não estava realmente acreditando que era verdade, o que pode justificar a falta de estrutura na Bienal de São Paulo.
A indústria está crescendo, existe leitores, eu nunca vi tantos blogs e vlogs literários como eu estou vendo nascer ultimamente, a grande massa de livros estrangeiros que estão chegando e que as pessoas estão lendo. O que não está acompanhando é a valorização dos profissionais nacionais, o modo como eles são tratados é totalmente diferente como os autores internacionais são tratados aqui no nosso país... E isso é totalmente inaceitável, na minha opinião. Até lá fora nossos escritores são tratados melhores que aqui como, por exemplo, Paulo Coelho é lido em escola, Jorge Amado e tantos outros clássicos que odiamos porque somos obrigados a ler, eles leem com o maior prazer.
A pesquisa da Folha termina da melhor forma possível e é uma coisa que eu sempre acreditei e é o meu foco principal como escritora: os autores não possuem a ambição de ganhar dinheiro, eles querem fazer uma boa literatura. Se você quer ser escritor porque quer ser rico/famoso, você não vai criar uma boa história. O que queremos é alimentar a nossa literatura com histórias extraordinárias e não há nada melhor do que ver alguém comentando que leu o nosso livro/conto e foi a melhor coisa que ele já leu na vida. Não existe coisa mais preciosa que isso.
Todo mundo me pergunta por que eu quero ser escritora e é isso que eu respondo. Eu quero que alguém fale o que falo para os meus autores favoritos, eu quero entrar no Skoob e ver pessoas comentando sobre meu livro e dando várias estrelinhas para ele, eu quero ir em um evento e um leitor me abraçar e agradecer por eu ter mudado a vida dele com aquelas simples palavras. Eu quero saber qual é a sensação de receber esse amor que eu e tantos leitores dão para nossos autores. É por isso que eu quero ser uma escritora.

PS: Existe uma matéria que o Raphael Draccon fez para a Folha que eu adorei e até compartilhei nas minhas redes sociais, se vocês quiserem ler (clique aqui).
                                                                                                                                                                                                                           
Esse post faz parte da coluna VAMOS FALAR SOBRE, em que eu falo sobre assuntos polêmicos e "polêmicos" que saíram na internet, revistas, jornais ou nas redes sociais. Lembrando que tudo escrito neste post é a minha sincera opinião junto com um pouco de pesquisa, se você perceber algo errado nos dados ou quiser deixar aqui sua opinião para termos um debate saudável, será sempre bem-vindx.

2 comentários

  1. Ooooi,
    Eu comecei a ler esse post de manhã cedo e só terminei agora, meu Deus. Enfimmmmmm, eu estava esperando por esse post e ele foi tudo que eu achava que seria. Você está certa em tantos níveis diferentes ao dizer que a culpa da falta de vontade de ler é o fato de ser obrigatório. As escolas precisam arranjar formas mais criativas de incentivar a leitura ou nunca haverá um momento em que os jovens se sentirão motivados a ler. É uma verdade para todas as matérias: se é necessário mesmo aprender aquilo tudo, que seja pelo menos de uma forma interessante ou aquela informação passará pela cabeça do aluno de forma dolorosa e depois sumirá. Ninguém absorve nada desse jeito.
    E sobre o desejo dos escritores de simplesmente compartilhar suas palavras com o mundo, é a verdade mais pura que eu já li <3

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    Respostas
    1. Oi g!
      Olha que isso não é nem metade do que queria dizer, é só o começo de todo esse ciclo imenso sobre a nossa literatura. Eu realmente espero que essa nova geração - a nossa geração - possa mostrar que ler é maravilhoso e que essa realidade nas escolas possam mudar.

      beijos, tatii alves

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