Dia Nacional do Escritor e Novo/Velho Conto

julho 25, 2014

Hoje é o Dia Nacional do Escritor e PARABÉNS PARA TODOS OS ESCRITORES!
Eu esperava fazer esse post mais cedo, porém eu passei mal à tarde etc etc etc. O lado bom é que fiquei bem o suficiente para terminar rapidinho a revisão e aqui estou eu para mostrar para todo mundo.
Sim, esse é aquele conto que tenho há séculos e tentei colocar no Wattpad, mas não gostei muito de mexer com aquele site. Então, revisei ele e vou deixar aqui no blog para quem quiser ler.
Para quem não sabe Céu Violento é um conto que escrevi no fim de 2012 e começo de 2013 e publiquei em um grupo do Skoob, ele é baseado na música música do John Mayer, I Won't Give Up, e tem referências na música o tempo todo.
Espero que quem não ainda não leu goste e quem leu a versão original goste dessa nova versão, apesar de não ter mudado tanta coisa.
                                                                                                                                                                                           


Céu Violento

por tatii alves



E lá estava eu. Sentada em um banco, sem rumo, sem perspectiva, sem futuro. Sem corpo. Sem uma casca. Apenas um véu transparente e invisível para o resto do mundo. Condenada a ver o sofrimento do meu amado sem poder fazer nada.

Ele andava de um lado para o outro, desesperado, sem dormir e sentindo culpa, desejando estar ao meu lado. Gabe senta, levanta e anda, repetindo esses movimentos toda hora. Conseguia ver sua vibração, sua aflição, e me sentia mais culpada ainda.

Não me lembro muito bem do que aconteceu naquele dia. Gabe e eu estávamos discutindo sobre alguma coisa. Eu saí correndo irritada, bati a porta e segui em direção a minha casa que ficava alguns quarteirões dali. Lembro-me do barulho do carro de Gabe me seguindo, resolvi correr mais rápido para ele não me alcançar. O sinal fica vermelho para os carros e aproveito para ganhar uma vantagem dele, escuto alguma coisa e então sinto meu corpo voar... o mundo ficou preto e cinza e branco demais.

Por um tempo não conseguia enxergar nada, mas escutava tudo. Gabe chorando, o barulho da ambulância, várias pessoas ao meu redor, a cirurgia e mais choro da minha família. Então, de alguma forma, consegui ver tudo. Eu vi a minha família, meu namorado e eu mesma; eu estava fora da minha casca, eu estava livre. Foi quando o médico chegou e disse para minha mãe que eu não ia sobreviver e que eles deveriam considerar o desligamento dos aparelhos para aliviar a minha dor. Confiante, minha família não deixou que isso acontecesse.

- Gabe, você não quer ir para casa? Vá tomar um banho, trocar essa roupa e descansar um pouco, meu filho. Não há nada para fazer aqui – minha mãe tentava chegar mais perto, criar alguma ligação com ele. Gabe estava muito abalado.

- Não. Só vou embora quando Beca estiver comigo – ele respirava fundo para controlar as novas lágrimas. – Se algo acontecer com ela, eu... eu...

As lágrimas deslizam pelo seu rosto e mamãe finalmente o abraça. Meu desejo era consolá-los, dizer que eu estava bem, que estava com eles e ia voltar. Mas o véu transparente não conseguia se segurar em nada.

JP, meu irmão mais novo, leva mamãe embora deixando Gabe sozinho no estacionamento do hospital. Observo meu irmãozinho dirigindo seu novo carro que ganhou na formatura do ensino médio e a saudade me preenche. Gabe some da minha vista e deduzo que ele esteja comigo, com a minha casca vazia.

Encontro-o chorando, sua mão agarrada na minha, murmurava e soluçava ao mesmo tempo.

- Nunca vou desistir de você, Beca. Nunca vou desistir de nós. Fui um idiota naquela briga, sempre fui um idiota contigo. – Um soluço. – Te amo e sempre te amei. Desde o colégio lembra? Eu implicava tanto com você, era porque eu te amava. – E as lágrimas o dominaram.

No colégio, Gabe implicava muito comigo e eu o odiava. Meus cabelos sempre foram armados e quase ruivos, então ele colocou o apelido de leão em mim devido a minha “juba”. Seu passatempo era jogar bolinhas de papel no meu cabelo.

No dia da nossa formatura, ele me puxou para um canto e me beijou. Ali tudo mudou e algo dentro de nós se revelou, tudo fez sentido, todas as intrigas e sabíamos que éramos feitos um para o outro.

- Não vou sair do seu lado. Nunca. Está ouvindo, Beca? Nunca – meu namorado pega a minha mão e a beija. Aquilo me assusta. Eu sinto. O véu transparente e invisível que não pode tocar em nada sente aquele toque macio dos lábios de Gabe.

- Esperarei o tempo que for.

Sinto o mundo agitado e fico tonta. Perco o ar e minha visão fica cinza como no dia do acidente. Um clarão chega e me atinge como um trovão.

Sou sufocada pelo trovão.



Tento abrir os olhos e luz me cega. Minha mão agarra a primeira coisa que sente: algo duro e frio. Minha boca está seca e parece que meus lábios vão quebrar. Um grunhido pula da minha garganta, desesperado por alguém.

- Beca? Querida, está me ouvindo? – reconheço a voz de papai. O forte tenente da Marinha, nada podia abalá-lo, mas sua voz dizia o contrário.

Tento dizer as palavras, porém só saía grunhidos e sons esquisitos. Levanto os braços aos olhos para diminuir a luz, depois escuto o som das cortinas fechando e o quarto fica mais escuro. Faço meus dedos passear pelos meus lábios e papai pega um copo com água, entendendo o gesto.

O líquido desce ardendo pela garganta, a sensação era horrível e maravilhosa ao mesmo tempo. Pego um tempo para me acostumar com tudo: as paredes brancas demais, meus músculos rígidos, minha boca ressecada se acostumando com a água. Sentia meus músculos gritando e me mexo, o mínimo que for, cada membro de meu corpo para mostrar que para papai que eu estava melhor.

Meus braços estavam limitados devido emaranhado de agulhas, mexo devagar todos os dedos e solto um gemido de alivio. Nas pernas faço o mesmo; afasto das duas pernas e tento mexer todos os dedos de cada pé. Olho para papai e sua expressão é a mais triste de todas, retorno uma cara confusa para ele.

- Desculpe Beca. Fizemos tudo que era possível. Os médicos disseram que tínhamos que escolher – seus olhos se enchem de lágrimas. – Eles disseram que se não fizéssemos, você poderia não sobreviver. Nós só queríamos você de volta, só isso.

Faço minha mão livre de agulhas procurar o que estava de errado comigo, o que meus pais tiveram que dar para me salvar. E eu acho. Minha mão toca todos os lados do meu corpo até chegar no colchão cedo demais. Como é possível? Eu sinto, mas não há nada ali.

Vários grunhidos irrompem minha garganta e sinto meu coração disparar. Tento gritar, não adianta. Vejo algumas enfermeiras chegando e logo sinto a sonolência. Minha respiração fica lenta e o branco do quarto me cega de novo.



Quando acordo o céu já estava escuro. Deduzo que seria tarde da noite, uma vez que o resto do hospital estava quieto demais. Avisto uma campainha e resolvo apertá-la, mesmo triste com a perda da minha perna esquerda preciso saber o que aconteceu.

Logo aparece uma médica, ela estava segurando vários papéis e uma pasta.

- Olá Beca, estou feliz em vê-la mais calma – tento falar alguma coisa. – Não se dê o trabalho, suas cordas vocais ainda estão um pouco enferrujadas e vai demorar um pouco para voltar, sugiro que beba bastante água. Quero responder todas as suas perguntas, mas preciso que fique calma.

Repouso a cabeça no travesseiro, irritada com a minha impotência de fazer algo. Ela estende um maço de papéis e uma caneta. “Onde está Gabe?”, é a minha primeira pergunta.

- Vamos com calma, ok? Eu sou a Dra. Pegg. Você sofreu um acidente de carro. Estava atravessando a rua, teve a brilhante ideia de atravessar em diagonal e não viu o carro – minha expressão de tédio se transforma em indignação. Gabe me atropelou? – Calma, não foi seu namorado. Foi o carro vindo da direção contrária. A senhorita deveria parar de atravessar em diagonais.

Chego à conclusão de que vou acabar gostando dessa médica, por alguma razão. Olho para a grande janela do quarto na esperança de ver as estrelas típicas do verão, brilhando e lindas, mas elas não estão lá. Viro e finalmente observo a Dra. Pegg com mais atenção, seu jaleco estava inchado e percebo as blusas de frios por baixo.

“Que dia é hoje?”. Ela se agita e folheia os arquivos da pasta. Estava adiando a resposta o máximo possível.

- Rebeca, você teve ferimentos muito graves. Sua batida foi mais forte do que o normal, o motorista estava correndo, mas não é normal causar consequências assim. Depois da cirurgia, você ficou fraca demais e ficou em coma por algum tempo.

Em coma? Perguntas inundaram minha mente. Até ontem, eu estava no estacionamento com Gabe e havia passado apenas uma semana desde o acidente. Não foi um coma tão forte assim. Balanço o papel com a pergunta com mais determinação para descobrir a resposta.

- Hoje é quarta-feira. 10 de julho de 2012.

Julho? 2012? Meu coração acelera e a máquina ao meu lado apita no mesmo ritmo. Não é possível, como foi que o tempo passou tão rápido assim? Meus gritos saem como gemidos, mas a Dra. Pegg percebe a minha agitação.

A última coisa de que me lembro era ser 30 de janeiro de 2010! Dois anos. Eu perdi dois anos da minha vida. Eu dormi com 19 anos e acordei com 21. Vejo a jarra de água e bebo um pouco.

- Onde está todo mundo? – Pergunto com a voz fraca e rouca.

- Seus pais estão na cafeteria – ela aponta para a parede de vidro e avista meus pais. – Olha só eles ali.

Meus pais olham para o quarto e seus rostos se iluminam no momento em que eles me veem. JP, meu irmão, vem correndo e me abraça no meio dos fios. Sinto-me um pouco melhor ao ver todos ali, ou melhor, quase todos.

- Beca, que bom que você voltou – mamãe fala ao lado de papai.

- Você não sabe o tanto que perdeu! Estou fazendo um estágio – JP conta, animado. Meu irmãozinho agora tinha 20 anos, a idade que iria fazer duas semanas depois do acidente.

Ajeitei-me melhor na cama para ouvir todas as novidades. Observei toda a minha família, todos estavam felizes e rindo com o modo como JP contava as histórias. Papai, então, me chamou a atenção; seus olhos estavam tristes e não conseguiam ficar me olhando por muito tempo antes de voltar para o chão.

Logo cedo, no outro dia, fui fazer alguns exames para saber das minhas condições. Descobri que odiava a cadeira de rodas, elas eram estranhas e desconfortáveis. A caminho da ala de exames senti um formigamento e jurei que senti meu pé esquerdo coçar.

- Isso se chama membro fantasma – explicou a Dra. Pegg quando lhe informei do formigamento. – Mesmo sem os membros, o cérebro continua mandando informações e estímulos, sobre o membro, no caso a perna.

A tarde alaranjada estava dominando a paisagem e papai estava sentado na poltrona ao lado da cama resolvendo um caça palavras de nível médio. Estava criando coragem para tocar no assunto e aquela seria a melhor hora, sem mamãe para desviar o assunto.

- Pai? – ele olha para meus olhos por cima dos grossos óculos e logo sabe o que quero dizer.

Sempre tivemos essa conexão. Era como uma comunicação telepática, instantânea, algo que nunca tive com minha mãe.

Papai foi a primeira pessoa a compreender o meu amor por Gabe. Ele entendeu que aquele menino magricelo de cabelos bagunçados me fazia feliz como nunca fui. Agora esse mesmo menino sumiu sem nenhuma explicação da minha vida e todos fingem que ele nunca existiu.

- Beca – ele se levanta e anda até a cama, se apoiando na barra lateral. – É complicado. Por favor, entenda. Os médicos disseram que você não ia voltar, você ficou “fora do ar” muito tempo.

De repente sinto aquela sensação, a sensação de que algo ruim iria sair da boca de papai e iria fazer com que eu sofresse.

- Alguns de nós tivemos que seguir em frente.

As lágrimas começaram a surgir no canto do meu olho. Gabe estava aqui e agora ele se foi.

- O que aconteceu? – pergunto, sentindo o nó na garganta.

- Ele recebeu uma oferta de emprego – papai fez uma pausa. – Então fizemos a sua cabeça para aceitar e se mudar. No começo, ele não queria por sua causa, mas o convencemos de que a única coisa que você quer é vê-lo feliz... Certo?

Papai tinha razão. Gabe sempre foi maravilhoso comigo, mesmo sendo tão cabeça-dura às vezes. A última coisa que gostaria era vê-lo triste, sem um futuro, pro minha causa.

- Vocês tem contato com ele?

- Faz uns seis meses desde que conversamos pelo telefone.

- Onde ele está agora?

Vejo o tenente da marinha hesitar e mudar de posição, estava desconfortável com o meu olhar desesperado. Observo seus cabelos totalmente grisalhos e a pele flácida, parecia que havia dormido por dez anos e não dois.

- Ele foi para Paris.

Nós estávamos separados por um oceano. Por um oceano, dois continentes, mais de nove mil quilômetros, um emprego e um acidente. Meu coração se aperta ainda mais e a for toma conta de mim, subindo pela garganta e depois descendo até os pulmões, me deixando sem ar.

Gabe estava em Paris e seis meses sem dar notícia. Qualquer coisa poderia ter ocorrido, ele poderia ter finalmente seguido em frente... Ter achado alguém.



Passei um mês no hospital e mais alguns fazendo visitas para fisioterapia. Tinha algo para me distrair e deixar Gabe longe da minha aflição, pelo menos por um tempo.

Com alguns contatos, conseguiram uma perna falsa para substituir a que eu havia perdido no acidente. A ideia de usar uma cadeira de rodas não me agradava. Na perna falsa pinicava e, algumas vezes, era desconfortável; ao explicar para Dra. Pegg, ela respondeu que era porque eu estava me acostumando e que a sensação iria sumir com o tempo.

Finalmente havia recebido alta do hospital e JP estava me ajudando a me preparar para ir para casa depois da última fisioterapia.

- Eu mandei um email para ele, Beca – me viro para ver seu rosto.

- Para quem?

- Gabe. Mandei um email para Gabe dizendo que você tinha voltado.

- Ele respondeu? – não sabia se queria saber a resposta, mas sabia que JP iria dizer mesmo se fosse algo realmente doloroso.

- Sim. Ele disse que estava feliz e para lhe mandar boas-vindas de volta – ele hesita e percebo que ele tenta esconder alguma informação.

- O que mais, JP?

- Ele... Ele disse que não pretende voltar – ele examina minha feição e continua devagar: - Gabe disse que ainda não aceita o que aconteceu, mas espera que você o perdoe.

Aquelas palavras me atingem de uma forma inimaginável. Gabe não queria me ver, ele estava dopado de dor e culpa. Então resolveu se mudar para o outro lado do mundo e me esquecer?

- Beca, ele ficou um ano aqui nesse quarto de hospital. Não saía, não visitava os amigos, sua mãe ficava meses sem vê-lo. Nós vimos Gabe definhar e virar pó. Sem vida – meu irmão fala com calma para ter certeza de que estou absorvendo tudo que diz. – Quando surgiu a proposta foi como uma dádiva. Ele estava quase desistindo da faculdade e o emprego era sua única chance.

- O que quer que eu faça, JP? Que eu pule de alegria por ele ter finalmente se livrado de um fardo como eu? Eu estava presa em uma cama, dormindo, sem vida e sem uma perna, então era mais fácil ele virar as costas e ir embora e esquecer-se de mim, da nossa história! – Percebo que estava gritando para meu irmão e vejo como minhas palavras soavam egoístas, mas os sentimentos estavam presos e queriam sair.

Gabe sempre jurou que ficaríamos juntos, que nunca desistiria de mim e agora descubro que ele quebrou sua promessa. Senti a gravidade me puxando para baixo e me esmagando.



Tudo em casa havia mudado. A sala agora era separada da cozinha apenas por um balcão e os quartos ficavam no segundo andar, todos com banheiro. Sinto como se aquela casa não fosse a minha, até as lojas da nossa rua haviam sumido e, no lugar, havia cafés e boutiques.

Mamãe queria que eu ficasse no quarto das visitas no térreo até estar cem por cento adaptada com a perna, mas neguei não querendo parecer uma inválida ou algo parecido. Meu quarto parecia o único que não sofreu uma reconstrução total, a não ser pelo tamanho que duplicou.

Vou até a cômoda e abro a terceira gaveta. Ainda estava lá. Um velho caderno personalizado que, antes do acidente, guardava todas as recordações boas da minha vida. Havia uma flor seca que ganhei secretamente no primeiro ano e, mais tarde, descobri ser de Gabe; cartas de aniversários de amigas e meus pais e m monte de fotos com meus pais e meu irmão. No meio do caderno estava separado com fotos apenas minha com Gabe, criado logo depois da formatura. Na primeira página estava escrito “Mesmo que os céus fiquem violentos...”, que seguia com as fotos e, na última folha, a frase era completada “... eu não vou desistir da gente”.

Aquele era nossa frase, nosso mantra. Havíamos jurado inúmeras vezes que não iríamos desistir. Nunca. Sabia que o que sentíamos era para sempre e não iria desistir agora. Naquela noite, eu não consegui dormir e estava determinada a não dormir até achar um jeito de descobrir se o que havia entre Gabe e eu estava realmente terminado.

Papai estava no escritório novo cuidando da contabilidade da loja de ferramentas que administrava junto com seu irmão, agora que era aposentado. Andava com certa dificuldade pelas escadas por causa da nova perna. O que estava preste a pedir não era fácil, mas sabia que papai não podia negar.

- Beca! – ele pula da cadeira ao me ver na batendo na porta. – Precisa de algo?

- Não... Na verdade, preciso.

O velho tenente espera pacientemente pelo meu pedido.

- Eu preciso de quatro mil reais – falo tão rápido que preciso de um segundo para ter certeza de que falei na ordem certa. Papai engasga um pouco e fica sem ar.

- Você precisa do quê?

- Quatro mil reais... Por favor? – vejo-me fazendo aquelas caras de cachorro que caiu da mudança.

- Para fazer o que exatamente, Rebeca? – odiava quando ele usava o meu nome, significava que ele estava nervoso ou estressado. Sento na poltrona e respiro fundo:

- Para ir até Paris – ele fica surpreso. – Preciso ir, papai. Não vou conseguir viver sem ter certeza. Preciso vê-lo.

- Beca... Não quero ver a minha filha triste, mas e se ele já tiver seguido em frente?

- Acho que ficar sem notícias dele é o mais doloroso que consigo chegar, papai.

Papai toma um minuto e reflete com seu eu interior. Suspira alto e então anda até a gaveta e pega um cartão de crédito.



JP fez uma pesquisa intensiva sobre o paradeiro de Gabe através dos emails e suas atualizações nas redes sociais. Ando pelas ruas desconhecidas e observo o belo francês dos nativos, me sinto cada vez mais estranha e sem rumo aqui.

Paro em frente a um grande prédio e admiro sua beleza, uma mistura de anos cinquenta com a modernidade. A “Toujours” era uma empresa de fotografia mais recente e mais falada na Europa, estava revelando grandes beldades da moda mundial e eles selecionaram Gabe para trabalhar com eles.

Sentei em um grande banco da praça que fica em frente ao prédio. Sem saber o que fazer, eu decido esperar até ele aparecer. Fico ali parada admirando a entrada do prédio por uns vinte minutos e então acontece.

Calça jeans, camiseta azul, cabelos negros e bagunçados. Eu o vejo. Quando me dou por mim estou atravessando a rua, percebo que é uma péssima ideia e paro. Uma buzina me desperta e vejo que estou no meio da rua. Seus olhos me enxergam e seus olhos brilham como se não acreditassem no que estão vendo.

Peço desculpas ao motorista e sigo até Gabe. Minha boca se abre diversas vezes, mas nada sai deles.

- Beca... O que você está fazendo aqui? – ele estremece e concluo que está achando que é um sonho.

Passo as mãos pelo cabelo decidindo o que eu vou dizer. Não posso simplesmente chegar e dizer: “Ah, eu acordei no hospital e você não estava lá, então cheguei ao ponto de não conseguir dormir de tanta saudade e agonia por você ter ido embora. Então pedi o cartão de crédito do papai e aqui estou...”

- Apenas para te ver – espera aí! Eu realmente disse isso mesmo? – Hm, JP me contou sobre o email...

De repente o silêncio invade a rua e o clima fica desconfortável. Nenhum de nós sabia o que dizer ou fazer, agindo como se não tivéssemos a história que tivemos.

- Então, quer ir a um café, conversar? – Ele olha no relógio. – Agora tenho quarenta e cinco minutos de almoço – e sorri.

Percorremos a rua de paralelepípedos e viramos em uma viela, onde vários cafés e cantinas estavam localizados. Entramos em um café pequeno e aconchegante, estava vazio tirando por alguns estudantes. Sentamos no fundo, longe dos jovens barulhentos e animados.

- Quando chegou a Paris?

- Ontem à noite.

- Quanto tempo você... – ele hesita. – Quando foi que...

- Eu acordei? Hm, acho que faz uns oito meses ou nove. Andei fazendo fisioterapia, sabe, para a perna – olho para o chão sem ter coragem de olhá-lo nos olhos. – Estou ficando melhor... E você?

Ele fica sem jeito e respira fundo antes de cuspir as palavras.

- Beca, eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Eu quase morri quando vi você desmaiada no meio da rua, quando você estava naquela cama em coma. Fiquei ao seu lado o tempo todo e jurei pra mim mesmo que não iria sair de lá até você voltar. Então apareceu a oportunidade de emprego e seus pais falaram que eu devia aceitar e...

Paro um tempo para refletir e ingerir todas as suas palavras. Não culpo Gabe pelo o que aconteceu, nenhum de nós tínhamos culpa pelo o que aconteceu. Seus olhos diziam que ele se culparia até o seu último suspiro.

- Não te culpo, Gabe – pego sua mão gelada por cima da mesa. – E acho que você deveria parar de se culpar. Na verdade, eu vim aqui para te mostrar uma coisa.

Abro a bolsa e pego o velho caderno personalizado. Seus olhos se arregalam, vejo as lágrimas se amontoando e sua mão treme ao pegar no caderno. Seus dedos passam delicadamente pela frase na primeira página.

- Gabe...

- Desculpe-me, Beca. Eu... Eu não consigo. Desculpa.

Gabe levanta e sai correndo para a rua, sumindo da minha vista. Todos no café ficam olhando para a cena que aconteceu em apenas segundos. Ele estava se desculpando, não conseguia ficar mais perto de mim. Seria a culpa ou não tinha coragem de ficar comigo, nas minhas atuais condições? Ou os dois juntos.



Chego ao hotel ligo para JP a fim de algum conselho. Papai tenta me convencer de voltar e esquecer toda essa história, mas digo que ainda preciso de um tempo.

Os dias passam e pego me perguntando o que realmente espero? O que quero que aconteça? Olho para fotos do caderno e desejo voltar no passado e nunca ter tido uma briga estúpida.

Uma foto me chama atenção, o nosso aniversário de seis meses. Gabe montou um piquenique com bolos e sanduíches em uma tradicional toalha quadriculada. O nosso canto do parque foi decorado com balões coloridos, tudo organizado por Gabe. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Recebo uma ligação de papai falando que a passagem estava marcada para o primeiro voo do dia seguinte. Ele não podia mais pagar tempo em Paris. Concordei, não havia nada que eu pudesse fazer depois de mais uma semana sem notícia de Gabe.

Depois de arrumar as malas, vou até o prédio onde Gabe morava – graças à habilidade de JP em descobrir coisas na internet. O lugar tem um toque de elegância dos anos vinte, vejo o porteiro e pergunto sobre Gabe. Era horário comercial, sabia que ele não estaria em casa, então peço uma caneta e papel e escrevo:

"Porque até as estrelas queimam

Algumas também caem sobre a terra

Temos muito a aprender

Deus sabe que somos dignos

Não, eu não desistirei"



O aeroporto estava lotado suficientemente para as pessoas se esbarrarem. Naquele momento minhas esperanças já tinham se esvaído. O embarque aconteceria dali meia hora, tempo suficiente para ver o olhar julgador das pessoas ao ver minha perna falsa – talvez seja uma reação considerável quando se usa bermuda.

- Senhores passageiros do voo 521 com destino ao Brasil gostaríamos de avisar que o embarque está sendo feito nesse momento.

Essa era minha deixa. A fila era maior do que eu esperava e demoro quinze minutos para chegar a minha vez. Entrego o meu passaporte e o bilhete para a mulher, quando escuto:

- Beca! Beca!

Olho para trás em direção ao som. Gabe está correndo e esbarrando nas pessoas que ficam a sua frente.

- Beca, não entre, por favor!

Todos no aeroporto assistem aquela cena, maravilhados com tudo. Olho para ele, incapaz de abraçá-lo de volta de tão chocada que estava.

- Gabe! O que você está fazendo aqui?

- Não diga que você não tem nada a ver com isso – ele ri e mostra o bilhete com o caderno de fotos. – Beca, eu nunca devia ter feito aquilo naquele dia. Eu estava com medo. Eu não quero te esquecer, quero ficar com você... Para sempre – ele pega meu rosto com as duas mãos e acaricia minhas bochechas. – Eu te amo, Rebeca.

Então, ele me beija. Não o nosso beijo casual, mas um beijo diferente, como na nossa formatura. Naquele momento, tudo estava bem de novo. Gabe estava comigo e eu estava com ele. Para sempre.

- Não desistirei de nós...

- Mesmo se os céus ficarem violentos.

1 comentários

  1. Ai Tatii, que lindo :') Não é justo, eu to sentimental esses dias. Me apaixonei.

    P.S.: Fiquei cantando I Won't Give Up enquanto lia.

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